segunda-feira, 23 de abril de 2012
antes que voltasse o outono.
Quando eu cheguei no portão ja me soava estranho olhar para o lado e ver que eu não conhecia a vizinha que lavava a calçada, quando eu olhei pela grade meus olhos foram diretos pro fundo do quintal pra ver se aquela casinha vermelha ainda estava ali e se aquele dalmata velho ainda viria ao meu encontro quando eu entrasse naquela casa, a vizinha disse bom dia, meio que por educação, mas naquela hora o desconhecido parecia mais proximo do que tudo que ja foi um dia meu, e que chamei de vida, talvez fosse eu naquela hora o que havia de mais desconhecido por ali, meu cachorro não latiu, e eu não desejei bom dia a ninguem. A casinha vazia parecia um sinal mostrando que aquilo era tudo que eu viria a encontrar no meu dia. Demorei a encontrar a chave do cadeado, mas depois de achar foi facil perceber que não havia cadeado ali e que o portão estava aberto, a grama do jardim cresceu, a pintura não era a mesma mas já estava na hora de troca-la denovo, a porta era a mesma ainda, mas ali a menos de um metro de abrir minhas saudades jogadas pela mesa, meus sorrisos pregados na parede e minhas memorias espalhadas até mesmo nos defeitos dos azulejos, minha mão tremia e eu mal conseguia segurar as chaves, a ansiedade não era a mesma, agora era quase medo. Mais que tudo eu pedi a calma do cigarro, um gole de cachaça ou a coragem da cocaína, desejava tudo aquilo que tirou de mim tudo aquilo que estava a menos de um metro, mas depois de anos tudo que eu queria era olhar pro que antes eu não dava a mínima, eu até abraçaria agora aquela tv - na época ainda com cheiro de nova - que tentei vender por pouco mais de 25. Acertei a chave de primeira e BUM! foi como um tiro no peito quando essa porta se abriu. Eu quis brilho, pedi a luz, e juro, só sobrou a poeira escura do asfalto dando um tom cinza aos moveis da casa. Tinha sobre a escrivaninha a marca de um copo, com a poeira mais fraca, parecia que aquilo tinha ficado ali por meses, até que você resolveu que aquilo tambem faria parte da mudança. Minhas cartas não estavam no meio das dezenas de contas jogadas pelo chão e que não foram nem abertas, o que me deixava a duvida de que talvez você nem as tenha recebido ou talvez tenha levado contigo as ultimas palavras que você não me ouviu dizer. Acreditei mais na primeira opção, pois em uma dessas cartas eu te pedia pra me esperar, coração é tolo, talvez você tivesse esperado se tivesse lido oque eu disse. As cartas chegaram, o que não chegava mais em você era a saudade.
esquina da 45 com 12, na padaria do antunes.
Nunca imaginei o seu carpete daquela cor. Imaginei lilás, verde limão, magenta, cogitei até que não houvesse carpete ali, mas nunca o imaginei daquela cor. Não esperava tambem encontrar o abajour daquele lado da sala, até pensei por um instante que ficaria melhor ali, naquela parede do canto, perto da janela, onde você espia a rua todos os dias, alguns minutos antes de eu voltar ao trabalho. Tropecei em encomendas que nunca te vi receber. Senti falta das almofadas coloridas e do cheiro de insenso que pensei que tivesse. Não tem. Estranhei até o vazio, sem as risadas, que eu ouvia todos os dias nesse mesmo horario enquanto imaginava o quão legal seria estar com todos vocês e dar as mesmas risadas que seus amigos davam sempre com você, mas essa parte entendí quando desligou a tv. Toquei os móveis, sentí poeira, e à essa altura eu ja pulava para desviar dos montes de papel e copos sujos que eu encontrava pelo meu caminho, jogados ao chão.Imaginei você, certas vezes, com mania de limpeza, e outras vezes, essas bem menos comuns, de cabeça voada, dessas que esquecem garrafas de gim espalhadas pelos cantos da casa, e dão a sorte de encontrar quando a boca séca, descendo como água. Mas eram apenas copos, de chá, café, sei lá. De gente que não tem mania de gim, nem de festas, gente que costuma ler os livros que ganha e as vezes escreve colunas na internet para comparar Jô Soares e Letterman. O cheiro de hortelã não era seu perfume, e olha que joguei até no Google pra saber se achava desse mesmo perfume, pensei ser coisa cara, lá de Paris, mas era o cheiro da sala, da cozinha e do mesmo hortelã que derramava na caneca junto com a água quente. E em um gole de água que eu tive de aceitar quando me ofereceu, enquanto me acompanhava ao chá quente dando meio-goles. Eu estava ali parado na cozinha, como já havia ficado na porta, antes de entrar, logo antes de você me atender e me guiar pela sala até a pequena cozinha. Sonhei com muitas coisas diferentes do outro lado da rua, imaginava onde ia e d'onde vinha com as sombras pela janela, imaginava me ligar enquanto fazia as unhas, um dia quem sabe, para combinar as horas que eu devia te pegar pra jantar. Enquanto isso imaginava, apenas quando me ligava pra pedir as compras, que tudo era desculpa pra que eu passasse aí, pra te entregar pessoalmente aquele leite, o pão, as frutas e o troco de bala que pedia as 6h, mesmo sabendo que isso não seria a verdade, pois nunca fui muito de entregar as compras, isso sempre foi serviço do Luis, que essa semana resolvera voltar pra Curvelo, dizendo o seu lugar foi sempre ali ao lado da mãe. Não esperava isso tambem. Não imaginava que seria agora a primeira vez de muitas que queria estar pisando ali, no seu carpete engraçado. Não imaginei estar te olhando nos olhos. Não imaginei você me dizendo obrigado. Não imaginava te ver hoje, agora. Mas imaginava eu parado aqui.
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