Inspirava-lhe o desejo de viver de artes. Sonhava em cantar umas coisas pelas ruas em que passava, deixar marcado por quem passasse o verso da poesia que julgava forte, escrita por ele mesmo. Não queria ser maior que nada, queria era mostrar que podia e sabia bem fazer das artes seu motivo principal dentre os humanos. - se Deus me quisesse mudo teria me feito outro bicho que desconhece as palavras e talvez os pensamentos, dizia ele, mas como Deus não explica as razões, ficou de fazer suas escolhas pelo que tinha em si, e fez opção pelas palavras. De começo inocente, quase sem lucidez, falava procurando rimas, encontrando moças que ouviam-no sem se atentar à essência, a beleza da fala iludia aos ouvidos femininos que retribuiam com carinho, carinho que iludia a mente daquele locutor, acreditou estar no auge das palavras e que com elas se podia fazer tudo.
O tempo fez seu serviço, aliado à ventura que lhe foi presenteada, sorte do acaso aprender a ouvir, observar e enxergar o que se diz sem nada se falar. Compreendeu que o papel das palavras era ir além do papel, além das namoradas e do curto tempo entre o pensar e o dizer. As palavras merecem a eternidade dentro da lembrança e pra isso ele precisava mais. Então se calou, passou a observar. Andava agora calado, aprendendo mas não guardando, colhendo e distribuindo o que tinha, deixava ser. Calado ele via os poetas que o mundo suporta, os profetas que nada tinham pra profetizar. Calado permaneceu esperando sua hora.
Quando se deseja demais fazer-se entender, a boca cala, impossivel ser compreendido onde não há reflexão, e vamos concordar, o leitor e eu, que num mundo onde muita boca fala pouco ouvido escuta. E mais uma vez se calou pra aprender.
Continuou caminhando entre os anos, que cada vez mais escorregavam sob seus pés, ouviu algumas musicas que falavam do que ele gostaria de falar, leu outros tantos livros, ouviu mendigos e chilenos, não fez pouco caso de quem julgou nada saber, deixou o preconceito dar lugar ao inesperado, atirou em todas as placas para ver qual lhe daria a direção correta. Não sabia bem o que procurava, mas sabia apontar o que não queria, se entregou ao amor e nele permaneceu até que a alma acalmasse, mas assim como é o mar, esbarrou também em tempestades até que as ondas lhe arrastassem para a praia. Ancorou e desembarcou de mais uma viagem, prometeu ao barco que iria voltar, saiu em busca de frutos novos de uma terra esquecida. Provou sabores que lhe confundiram o paladar, cuspiu antes mesmo de engolir. Caminhou, hora cansado, outras enjoado, pensava em voltar pro barco e descansar um pouco, pensava em seguir e procurar pelo novo. Pensava cada vez mais, seguia em silêncio e solidão, e quando tropeçava em outros corpos falava uma coisa ou outra, não mais jogando palavras fora, havia ali uma amostra grátis daquilo que estava planejando espalhar ao mundo. Enquanto não podia dizer tudo, falava sobre a pureza e a luz do viver, falava com calma mas pouco se fazia compreender. Viu que ainda não era tempo de falar.
Caminhou ainda por outros campos, fez de outros cantos sua morada, livrou-se do que pensou travar-lhe o pensamento, e ao se livrar teve de travar consigo mesmo uma disputa para se livrar do vazio inicial de quem se abstêm de tudo para obter o novo. Esse novo, meus amigos, soube ele bem perceber que pode se fazer muitas vezes do reinventar daquilo que se torna antigo. Percebeu que o que julgava verdade nada mais era do que aquilo em que acreditava, e assim como aprendeu a acreditar em tudo que suas experiencias lhe ofereceram como ensinamento, entendeu que a palavra deve ir além da crença, deve ser real por estado absoluto, pois assim como ele carregava suas verdades, outros também acreditavam naquilo que a vida lhes ofereceu como ensinamento, e a palavra que deseja ser eterna deve ir além, ao interior do peito onde se esconde o puro fogo que queima do nascer ao falecer, e só o que dispõe de força e sabedoria consegue ser lenha para iluminar os olhos que são o espelho da alma e o farol dos desejos. Acreditou nisso e com isso se apoiou, quando tentando escalar mais alto pra gritar, agora que sabia o que falar, notou que a distancia que percorreu o fez distante de todo ouvido. E assim como quem continua a rotina, calado permaneceu.