segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

 Uma vez meu primo me ensinou que os olhos passam a enxergar melhor depois que se acostumam com a escuridão. É preciso insistir um pouco antes de acender as luzes. Então vem aquele curto espaço, quase sempre imperceptível, dominado pelo escuro da visão e o aflorar de outras percepções, até que as coisas tomem formas, ate que se veja tons pretos e cinza escuro coexistindo na nova realidade.
 Não que eu seja aficionado por metáforas, mas muitas vezes me pego entretido em analogias e elas me chamam a atenção.  Quantas vezes nessa vida, iluminado em minha zona de conforto, com pouco do que eu procurei e muito do que se saltava à minha frente a todo segundo, me foi necessário fechar os olhos, fugir o olhar de tudo que parece estar devidamente onde deveria estar. Não quero me apegar às posições que damos as coisas, eu quero bagunçá-las pra ter certeza de que é um momento e não uma foto. É preciso saber quando se apagar as luzes, deve-se estar preparado, muitos vão te acusar de ser o culpado por terem batido as canelas, e nem você mesmo deve ter a coragem de se desligar sem ter onde cair. Eu confesso que em certas vezes poderia ter avisado antes que tudo ficaria preto por um tempo, evitaria uma grande bagunça. Mas a sensação que vem junto do escuro, alguns segundos depois que tudo se apaga, logo apos a luz remanescente sair da visão e as manchas claras se dissolverem no nada... aaah, como é bom poder absorver esse momento. Nas primeiras vezes assusta, confunde, mas quando se aprende a controlar fica fácil, sem pressa pra encontrar as coisas a nossa volta a gente encontra o que ta perto, o silencio ajuda a tornar mais obvio o que antes se escondia. Como se alguns segundos fossem anos, eu vou montando de novo meu lugar, tendo calma enquanto ando, cuidado pra não quebrar nada, e se ninguém acender as luzes de novo nem me oferecer um fogo, amanhã o dia vem e eu talvez enxergue as coisas de outra forma.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

- Quem diria que guerreiros se tornariam rebeldes, que a luz seria para poucos e as mesmas carnes sangrariam separadas, em silêncio.Temo não só por mim, mas pelo que temos de mais sagrado, pelo que chamam de bem ou amor. Tenho medo do rancor. Não quero a paz porque é pedir demais, poucos pacifistas sentiram isso alguma vez. Eu vi. Caía sobre mim a plena imensidão. Se a esperança é mesmo a ultima a morrer e não morreu até hoje, só pode ser ela o verdadeiro Deus, quem mais seria imortal?

choro

Me peguei chorando, sem dor, sem vontade de voltar no passado. Chorei porque chorar parece o maximo que o peito pode quando a lembrança vem e a gente sabe que foi bom, que foi forte, que foi pra marcar a alma e mudar dali em diante o ser. Daí, agora aqui da frente, olhando bem, tocando a grama que eu sentei e já nao é a mesma, as fotos que tirei e eu que ja nao sou o mesmo, o beijo que ganhei, o riso, o abraço, o amigo. Chorei hoje porque ainda que tenha chorado naquele tempo não era tempo ainda de compreender a força do choro.

esoterismo/epifania

Quando nos pegamos rindo de algum fruto da imaginação percebemos que pouca coisa nos falta além do que carregamos em nós mesmos. E se por dizer que é imensamente prazeroso for julgado louco, pelos loucos, direi ainda mais, que é o verdadeiro, se não único, estado da utópica liberdade, ter no imaginar a chance de se esquecer do passado e ao mesmo tempo tornar num sonho o máximo do impossível, possível, e não ter medo de se perder ao sonhar com o futuro, pois na imaginação não existe tempo ou espaço, só existe o que de mais intenso nos toca, a ponto de nos tirar de toda distração que se encontra a nossa volta.

das verdades que ainda estão verdes

Odeio ler poesias. Quão pífio me sinto perto dos poetas que parecem amar, parecem sonhar, parecem saber viver; e eu, pareço o quê? Sei de nada. Falo algumas coisas, penso outras tantas, evito chegar em conclusões pra que lá na frente, eu e meus pensamentos possamos nos esbarrar novamente e eu me pergunte "e agora, o que eu faço? O que eu acho?", penso outro tanto e. Sei de nada. Tenho me perguntado quem sabe mais: o que leu muitas páginas ou aquele que pouco aprendeu sobre o que outros descobriram antes? Todo caminho leva aos seus aprendizados, mas a pergunta que não quer calar taí, vim ao mundo pra saber do mundo ou vim ao corpo pra saber do corpo? Alguém disse uma frase e talvez não saiba que ficou famosa, mas sei lá se quero saber se foi ovo ou galinha o que veio antes, to na primeira fase da vida ainda, primeiro o homem nasce e se conhece, na medida da necessidade, depois é que se acha esperto demais pra saber dos outros, mas eu ainda to lá, tentando saber se veio o corpóreo ou intangível, cabeça ou coração, tentando saber se vou pra direita ou pra esquerda, se faço poesia ou bebo cerveja. Que loucura, né? Imagina o que me dá quando cabe a mim, em algum debate, comentar se concordo que a vida passa rápido e os dias passam devagar, e eu nem sei ainda o que é vida. De longe parece confuso, de perto parece de longe. Sei de nada. Ninguém nunca me ligou pra avisar que era Deus e que tudo ficaria bem, que bastava seguir a cartilha. Dificil, não? Tanto a chance de eu atender o telefone quanto de estar seguindo o livro certo. São tantos livros. Mas não é blasfêmia, com todo respeito, até porquê, não suporto ser incrédulo, que vida sem graça! Não digo que seja um porre, porque porre de whisky é usado de monte pra fugir dessa monotonia, quanto prazer há em deixar que o álcool te apodreça por dentro só pra que fujas dessa vida podre por algumas horas (?). É por isso que só mesmo esperando outros parágrafos pra entender o que esse livro diz. 

Por isso eu creio (não sei em quê), 
Que crendo a gente cresce 
Parecendo a prece 
E é mais fácil se entender 
Quando escurece 
E a gente sabe bem o que fazer. 

Basta acreditar. Ontem mesmo acordei acreditando no amor, nove horas num escritório e eu já nem sabia o que era isso, de noite acreditei que era com a moça da mesa do lado que eu iria passar a noite, o problema foi que ela não acreditou nisso. Hoje acordei acreditando em mim, por que não? No primeiro buraco que pisei gritei por Deus e o mundo! Gritar Deus eu até entendo, foi o que minha mãe me ensinou a gritar quando pedisse socorro, mas o mundo não! Quem acredita em si jamais poderá acreditar no mundo. O mundo tem todas as verdades, e só mesmo o poeta pode tê-las sem se perder. Enquanto limpava o sapato tive minhas duvidas sobre isso também. Percebi que era hora de guardar os pensamentos e esperá-los voltar mais tarde. Mandei tudo pro diabo e acendi um cigarro.

domingo, 13 de julho de 2014

Aos inconstantes



Quando ninguém souber dos sacrifícios que eu já fiz, eu vou me envergonhar de ter batido na sua porta. E se você tivesse me atendido, tudo bem, não seria mais problema, seria solução. Da rua pude ver a sala escura, uma luz no fundo e ouvir o latido do cachorro enquanto eu tocava o interfone. Cedo demais pra você estar dormindo, mas era domingo, tarde demais para sair.

Eu as vezes pareço vazio, nos meus planos pro futuro é mais fácil me imaginar andando só, mas quando acordo com a garganta seca as seis da manhã e o sono já não volta mais, eu sei que essa abstinência não tem nome de saudade. O gosto neutro do café, os olhares vazios que só refletem o meu, é quando todo resto deixa de ser gente pra ser apenas corpo que eu não quero esbarrar.

O que será que dá em mim? Atravesso quarteirões pra ir comprar um maço de cigarros na sua rua. Aflito eu me sinto, mas não é saudade, eu só passei por aí. Os dias de tristeza existem, e não podem ser dispensados. Eu precisava mesmo caminhar, é que essa casa vazia me enche de angústia, e eu nem sei se estou falando de mim ou desse apartamento.

O tempo flutua à nossa volta e enquanto você passa leve pela gravidade eu esbarro em coisas que me prendem ao eterno, as horas congelam e você não chega, alguma ideia indiscreta me sussurra sua voz resmungando em algum lugar que o domingo passou rápido e que queria que durasse mais. Ah, se esses pensamentos tivessem noção do quanto eu queria que esse dia passasse eles não fariam isso. Deixei a casa limpa mas não recebi visitas, fiz café pra mais de um e agora bebo frio.

- So, so you think you can tell Heaven from Hell. Ontem eu te perguntei se era tarde pra dizer que era saudade o que eu sentia e não sabia. Eu sei que não é saudade. Maldita crise de abstinência! Hoje foi foda, mas amanhã, quando a rotina me tirar o tempo - maldito tempo, amanhã, quando eu estiver um pouco mais vazio, em meio minuto pra amarrar o cadarço eu vou ter tempo de pensar, mesmo que ninguém saiba do que eu passei hoje, e vou me envergonhar amargamente de ter batido na sua porta.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

ninguém disse que seria fácil



Realmente, ninguém disse que seria fácil. Costumo dizer essa frase quando encontro alguma dificuldade, não como um mantra, mas para me lembrar de que é preciso fazer por merecer, nada vem fácil a não ser que tão fácil também vá. Porém tenho me questionado nos últimos dias se de fato a vida foi feita para ser tão complicada como me parece hoje em dia ou se não somos nós quem estamos criando os próprios problemas. Muitos talvez me entendam apenas com essas palavras, mas pretendo dizer um pouco mais. Quinta-feira, 6:15 da manhã e meu despertador me chama, preciso estar no trabalho as oito, poderia facilmente chegar em 30 minutos, mas outros milhões de pessoas estão na rua com o mesmo objetivo e é necessário acomodar todos nós nos ônibus e avenidas, se apertar um pouco, vai. Saio correndo mais uma vez, faz bem pras pernas; perco o ônibus, outros do meu lado também perderam, paciência e esperança é só o que posso ter, tomara que o ônibus passe rápido pois não posso tomar outra advertência. Passou, ufa! Pouco mais de oito horas trabalhando, sem problemas, só mais um dia sem ver o sol. Saio do escritório gelado pra comprar o almoço, o dia está mais quente do que imaginei, enquanto tiro o moletom meu celular cai no chão, desliza até o pé de um homem que desvia e segue andando, enquanto abaixo para pega-lo alguém esbarra em mim, caio, outros desviam e seguem andando. Volto do almoço, continuo meu trabalho, o barulho do transito lá fora parece maior que de costume, alguém chega me dizendo que um viaduto em construção desabou na Pedro I, uma hora depois e era só o que se falava na televisão e internet. Sorte a minha, tem um viaduto entre meu trabalho e minha casa, os carros pelas ruas que passo me aconselham a não pegar o caminho de todos os dias, resolvo pegar um metrô até o centro e de lá andar até um ponto de ônibus que me leve por algum caminho alternativo. No ócio do metrô me pergunto - quem diabos fez esse viaduto? De quem é a culpa disso? Serão os funcionários em trabalho escravo ou o primo do prefeito, dono da empreiteira, talvez o engenheiro que tocou a obra mesmo morando na Europa? Talvez tenha sido o bom prefeito que calculou a verba, depois disse que gastaria um pouco mais, mas todo mundo acha que nem a metade dessa verba foi usada, e se não foi usada então onde foi parar? Talvez na Europa. Realmente, ninguém disse que seria fácil, mas a falta de vontade, a pressa e a preguiça, talvez o egoismo e a maldade... O ser humano tem se acabado, hoje foram três mortos, ontem foram outros, morrem de tiro, de fome, morrem por tentar melhorar as coisas. Do outro lado do mundo bombas explodem, guerras se espalham. Isso não é uma crônica muito menos fábula, talvez um lamento de quem observa sem entender, mas do que importa? Amanhã tem mais um jogo da Seleção Brasileira e o luto fica pra depois, estão dizendo que a copa do mundo está ótima.