segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

 Uma vez meu primo me ensinou que os olhos passam a enxergar melhor depois que se acostumam com a escuridão. É preciso insistir um pouco antes de acender as luzes. Então vem aquele curto espaço, quase sempre imperceptível, dominado pelo escuro da visão e o aflorar de outras percepções, até que as coisas tomem formas, ate que se veja tons pretos e cinza escuro coexistindo na nova realidade.
 Não que eu seja aficionado por metáforas, mas muitas vezes me pego entretido em analogias e elas me chamam a atenção.  Quantas vezes nessa vida, iluminado em minha zona de conforto, com pouco do que eu procurei e muito do que se saltava à minha frente a todo segundo, me foi necessário fechar os olhos, fugir o olhar de tudo que parece estar devidamente onde deveria estar. Não quero me apegar às posições que damos as coisas, eu quero bagunçá-las pra ter certeza de que é um momento e não uma foto. É preciso saber quando se apagar as luzes, deve-se estar preparado, muitos vão te acusar de ser o culpado por terem batido as canelas, e nem você mesmo deve ter a coragem de se desligar sem ter onde cair. Eu confesso que em certas vezes poderia ter avisado antes que tudo ficaria preto por um tempo, evitaria uma grande bagunça. Mas a sensação que vem junto do escuro, alguns segundos depois que tudo se apaga, logo apos a luz remanescente sair da visão e as manchas claras se dissolverem no nada... aaah, como é bom poder absorver esse momento. Nas primeiras vezes assusta, confunde, mas quando se aprende a controlar fica fácil, sem pressa pra encontrar as coisas a nossa volta a gente encontra o que ta perto, o silencio ajuda a tornar mais obvio o que antes se escondia. Como se alguns segundos fossem anos, eu vou montando de novo meu lugar, tendo calma enquanto ando, cuidado pra não quebrar nada, e se ninguém acender as luzes de novo nem me oferecer um fogo, amanhã o dia vem e eu talvez enxergue as coisas de outra forma.

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