domingo, 13 de julho de 2014

Aos inconstantes



Quando ninguém souber dos sacrifícios que eu já fiz, eu vou me envergonhar de ter batido na sua porta. E se você tivesse me atendido, tudo bem, não seria mais problema, seria solução. Da rua pude ver a sala escura, uma luz no fundo e ouvir o latido do cachorro enquanto eu tocava o interfone. Cedo demais pra você estar dormindo, mas era domingo, tarde demais para sair.

Eu as vezes pareço vazio, nos meus planos pro futuro é mais fácil me imaginar andando só, mas quando acordo com a garganta seca as seis da manhã e o sono já não volta mais, eu sei que essa abstinência não tem nome de saudade. O gosto neutro do café, os olhares vazios que só refletem o meu, é quando todo resto deixa de ser gente pra ser apenas corpo que eu não quero esbarrar.

O que será que dá em mim? Atravesso quarteirões pra ir comprar um maço de cigarros na sua rua. Aflito eu me sinto, mas não é saudade, eu só passei por aí. Os dias de tristeza existem, e não podem ser dispensados. Eu precisava mesmo caminhar, é que essa casa vazia me enche de angústia, e eu nem sei se estou falando de mim ou desse apartamento.

O tempo flutua à nossa volta e enquanto você passa leve pela gravidade eu esbarro em coisas que me prendem ao eterno, as horas congelam e você não chega, alguma ideia indiscreta me sussurra sua voz resmungando em algum lugar que o domingo passou rápido e que queria que durasse mais. Ah, se esses pensamentos tivessem noção do quanto eu queria que esse dia passasse eles não fariam isso. Deixei a casa limpa mas não recebi visitas, fiz café pra mais de um e agora bebo frio.

- So, so you think you can tell Heaven from Hell. Ontem eu te perguntei se era tarde pra dizer que era saudade o que eu sentia e não sabia. Eu sei que não é saudade. Maldita crise de abstinência! Hoje foi foda, mas amanhã, quando a rotina me tirar o tempo - maldito tempo, amanhã, quando eu estiver um pouco mais vazio, em meio minuto pra amarrar o cadarço eu vou ter tempo de pensar, mesmo que ninguém saiba do que eu passei hoje, e vou me envergonhar amargamente de ter batido na sua porta.

Nenhum comentário:

Postar um comentário